Flashbacks agridoces
A cogitação mais pessoal que alguma vez escrevi, aqui documentada para a posteridade. Há também mini-resgates cibernáuticos, uma teoria científico-capilar e um pequeno elogio a Marlene Dietrich.
Antes de mais, esta página voltou a chamar-se A Dupla Vida de Manon. Eu sei, eu sei, "mas que mulher indecisa". De facto, quando me perguntam "onde queres jantar?", a minha resposta costuma ser "não sei, escolhe tu". Não é por mal.
Os últimos anos foram passados com pouquíssimo poder de decisão sobre tudo e sobre nada, portanto a reconquista por estas bandas ainda não foi total, é um work in progress, e isso por vezes ainda se reflecte em alguma indecisão da minha parte.
Além disso, continuo a não gostar do meu nome (porque nunca gostei, na verdade) e se pudesse mudava, mas até aí sou indecisa e também as ideias que tenho não são as mais brilhantes. Contudo, por sugestão de um amigo, tomei a decisão de reverter o nome para o que estava já estabelecido no início desta minha jornada folhetinesca: A Dupla Vida de Manon.
E por falar em indecisão (já que as ideias se vão encadeando...), esta semana menciono também a insatisfação — com a vida e com o rumo que ela toma, com os percalços que encontramos pelo caminho — e porque agora falei em percalços, posso também mencionar os flashbacks (que dependendo da perspectiva podem funcionar como percalços), essas espécies de visões do passado que apenas servem para nos “sacudir” no presente e deixar receosos relativamente ao futuro.
Vá, já divaguei demasiado e também não quero abanar mais nada. ‘Bora lá!
Bóia de resgate ciberespacial
Sigo uma página de Instagram que partilha imagens e os chamados memes para comentar de forma muito irónica alguns aspectos mais peculiares das relações pessoais, da vida em sociedade, da cultura, etc., com uma estética um pouco na senda do grunge e de algo chamado sad girl, com muita música de Lana Del Rey e Fiona Apple à mistura (e agora que escrevo isto apercebo-me de que, se calhar, a verdadeira sad girl sou eu).
Ultimamente reparei que a dose de ironia nas publicações tem vindo a diminuir e qual não foi o meu espanto quando, esta semana, a administradora da página partilhou umas palavras muito enigmáticas e derrotistas.
Foi em inglês e tudo me soou a algo extremamente sombrio, por isso partilho aqui o seu conteúdo em português porque existe uma pequena sensação de conforto que só a língua de Camões nos oferece:
“Estou a entrar numa espiral muito negra onde já não consigo ver nada de bom para o meu futuro. Não tenho objetivos nem tento tê-los. A minha paixão, que é a música, sou péssima nisso. Já não aspiro a ser mãe nem a ser amada. E não posso partilhar isto com ninguém porque simplesmente vou soar a deprimida, mas honestamente não faço ideia do que estou a fazer. Até escrever isto parece inútil. Desculpem a energia negativa. Criei esta conta para fazer rir, mas acabou por se tornar no meu escape para pensamentos depressivos. Sinto-me uma fraude e que estou a fazer com que se sintam culpados ao dizer isto tudo. Se calhar devia calar-me.”
Não precisei de muito tempo para decidir enviar uma mensagem. Não fazia ideia do nome da rapariga nem da idade nem de onde era, mas tinha a certeza de que era mais nova do que eu.
Com o meu mommy mode activado, que é sempre mais forte do que a razão, partilhei resumidamente a minha situação, disse-lhe que também eu, por vezes, me sinto perdida na vida, com praticamente 30 anos a recomeçar como se tivesse saído da faculdade mas agora com dois filhos, e que todos os dias acordo e não desisto, que vivo em Portugal e mesmo não sabendo de onde é, acredito nela, que vai encontrar um rumo e pedi-lhe que nunca desistisse da vida, dos desafios que enfrenta ou dos seus sonhos.
A resposta:
“Wow that’s incredible to hear that ur pushing thru those difficult times and honestly very inspiring. You are such a strong woman and I hope you know that! You just made me cry! Thank you for sharing and being so kind I really appreciate it💋 beijos from the Netherlands❣️❣️❣️”
Moral da história? Várias!
Estamos todos um pouco perdidos, seja em Portugal, seja nos Países Baixos, onde for;
Não custa nada sermos simpáticos, podemos estar a mudar o dia ou até a vida de alguém, para melhor;
Algumas palavras, poucas, podem ter um poder altamente transformador;
Ganhei mesmo o meu dia!
Entretanto tenho enviado mensagens, também para perceber como se sente (mommy mode ainda activo) e, pelo tom, a rapariga parece-me mais animada. Já voltou a agradecer-me pelas palavras e perguntou-me se também está tudo bem comigo. No perfil não tem publicado nada, portanto esperemos que o seu sentido de humor regresse entretanto, com alguma alegria à mistura.
Cogitações avulso
Uma teoria capilar empírica
Esta cogitação pode ser um pouco controversa, mas já ando para partilhá-la há algum tempo. Há quem diga que quando se está apaixonada, interessada, o que lhe quiserem chamar, o cabelo torna-se mais "selvagem".
É uma teoria que surgiu a partir do filme How To Lose a Guy in 10 Days (que é uma das minhas comédias românticas favoritas), em que Kate Hudson interpreta uma jornalista que, para escrever um artigo, tenta conquistar e afastar um homem, Matthew McConaughey, em 10 dias e McConaughey faz de criativo publicitário, que aposta que conseguirá fazer Hudson apaixonar-se no mesmo período de tempo. Sem grandes surpresas, ambos os planos complicam-se quando os sentimentos começam a vir à tona…
E onde entra o cabelo nisto tudo? Logo no início, em que Kate Hudson tem-no sempre liso e arranjado, "no lugar". Mas à medida que a história avança e ela se envolve mais emocionalmente, o seu cabelo começa a perder a compostura, a ter mais ondas e caracóis, mais solto e mais leve, o que reflecte bem a sua despreocupação com o visual, o desenvolvimento da relação com McConaughey, mas, sobretudo, que já não está a fingir ou a mentir. O mais engraçado nisto tudo é que a própria Kate Hudson já confirmou esta teoria numa entrevista…
Em quase 30 anos, nunca pintei o cabelo nem fiz permanentes, alisamentos, nada. As minhas idas ao cabeleireiro, especialmente nos últimos anos, são praticamente anuais e consistem apenas em cortar as pontas (com dois filhos, é o que temos…). O meu cabelo natural é liso com pouca ondulação, mas ultimamente está a ganhar jeitos praticamente indomáveis. E ao contrário da Andie (a personagem de Hudson), não finjo e não minto (até porque, como se sabe, sou demasiado transparente).
E o que significa isto? Sei lá eu… Muita coisa, pouca coisa, nada até. A ver vamos. Deixo ao vosso critério. Apenas achei engraçado o paralelismo, pronto.
Flashbacks, esses pequenos regressos involuntários ao passado
É a cogitação mais pessoal e vulnerável que deixo aqui anotada e provavelmente vou arrepender-me daqui a uns dias. É a vida. É que tenho o defeito de pensar demasiado nas coisas e se pensasse menos talvez escrevesse mais (e melhor).
Se um dos propósitos da criação deste espaço foi o exercício de uma escrita honesta e sincera, então não há nada de mais honesto e sincero do que escrever aquilo que sinto. Serve também para tentar compreender determinados fenómenos que não têm grande explicação: coincidências, destino, a vida a acontecer.
Devaneios e arrependimentos antecipados à parte, fica então aqui registada a cogitação, também para memória futura, à qual vou tentar não dar tanta importância — por razões de sanidade mental e autopreservação.
Mas vamos lá. Sem medos.
Há uns dias fui ao Nimas ver a belíssima Marlene Dietrich ser uma impiedosa, diabólica e inebriante femme fatale (se tivesse metade da confiança de Dietrich, claramente não teria metade dos meus problemas) em The Devil is a Woman, de Josef von Sternberg, numa gloriosa mas malfadada cópia de 35mm. Um visionamento que recomendo (!!!) mas com certeza já não será no Nimas, pelo menos com aquela cópia em particular, porque a película, pufff, queimou: em directo, ao vivo, a cores, em grande, na tela, enfim, tudo aquilo que a pobre coitada não merecia. Uma tristeza tão grande que até fiz questão de assinalar o trágico momento num comentário no Letterboxd.
Ao sair do cinema, decidi ir a pé para casa e, enquanto respondia em áudio a um amigo, passei à porta de um restaurante onde estive há uns meses.
E se o diabo é uma mulher, também a nostalgia tem algo de diabólico e macabro.
Olhei por aquela porta de vidro e tudo o que veio a seguir foi uma dança de imagens em câmara lenta com o som de um coração acelerado como introdução para uma banda sonora.
O horror.
Antes não fosse.
Preferia que tivesse sido como um filme mudo, sem intertítulos e se possível que também essa película "fritasse".
No exacto lugar onde estivera sentada, estava uma rapariga a jantar e a rir com um rapaz. Por momentos, aquela rapariga desapareceu e lá estava eu, ali, sentada, outra vez.
(…)
A probabilidade...
O raio da probabilidade.
Mas afinal qual era a probabilidade!?
De estar a responder a uma pessoa ao mesmo tempo que passava exactamente à porta do restaurante onde já estivera com... essa mesma pessoa?
Macabro é pouco. Um nó na garganta. Outra vez a câmara lenta. Apanhou-me completamente desprevenida.
E a fita que não queimou… esta é que devia ter queimado.
É que fugiu-me metade do chão, caiu-me metade do céu e até a Avenida da República me pareceu demasiado pequena para conseguir respirar fundo a plenos pulmões.
E depois veio a catadupa agridoce de outros flashbacks. De momentos que gostava que se repetissem, só por um bocadinho. De outros lugares onde estive. De outras gargalhadas que dei. De outras músicas que ouvi. De outras horas que passaram. De outros filmes que vi. De outras palavras que disse (e as que não disse e que ainda podia dizer e também as que me foram ditas). De outros dias que já acabaram. De outros livros que li. De outros abraços que senti e de outros tantos que ainda estão por dar. Tudo isto em segundos, à frente dos meus olhos. Até que pararam, porque tal como vieram, foram embora. Em segundos.
(…)
Enfim, enfim. Não gosto de sinais quando não os consigo interpretar e também não gosto de pensar que são sinais quando, no fundo, sei que o são. Estaria apenas a atrair mais cogitações — e esta já vale por muitas.
Sobretudo gosto ainda menos daquilo que não consigo explicar. Porque não consigo mesmo explicar, nem com desenhos, nem por palavras, nem a partir de gestos, estas cotoveladas alegóricas que tenho recebido nos últimos tempos. Porra! Não pedi isto! (Perdoem-me a linguagem).
A única coisa que sei é que nada acontece por acaso… ou acontece, já nem sei.
Vá, Universo, para lá de me pregar partidas. Isto já não tem piada.
Longas noites com os 10cc
Mais tarde ou mais cedo, este grande êxito dos 10cc tinha de vir aqui parar.
Tem o seu quê de ironia, dadas as cogitações desta semana, especialmente a anterior, mas posso garantir-vos que não é nenhuma indirecta.
Calhou assim porque, enquanto editava pela última vez o folhetim desta semana, comecei a sentir imensas saudades dos meus filhos (que regressam este fim de semana!) e a I'm Not In Love deve ter sido das músicas que mais cantei e dei a ouvir à minha filha quando era recém-nascida e não adormecia por causa das cólicas.
Ficava literalmente horas com ela ao colo, a dançar de um lado para o outro, até que adormecesse... e mesmo a dormir era preciso continuar mais uns minutos com o ritual porque o sono era leve mas o meu cansaço era tanto que diminuía só de olhar para ela, pequenina, a dormir.
Agora que escrevo isto, vêm-me as lágrimas aos olhos… pelas noites que não dormi e que me pareceram intermináveis, por todo o tempo que já não volta, por tudo o que já passei, pelo cansaço físico e mental que foram aqueles meses.
Enfim, já passaram mais de três anos mas continuo a adorar a música e a cantá-la sempre que a reencontro. E para isto ser mais giro, para a semana trago a música que cantava ao meu filho (uma pista: é de um álbum de 1977, que em termos de música talvez tenha sido o melhor ano da década de 1970).
Insólito da semana
Felizmente, o episódio inusitado desta semana é alegre e até me fez sorrir. Ainda sobre o Nimas e o filme com a Marlene Dietrich, enquanto tratavam da película depois do quase fatídico suicídio fílmico, um casal de estrangeiros (mas que falava muito bem português) que ainda comentava o triste episódio da película queimada decidiu, de repente, falar sobre a história do filme e, do que me recordo, foi mais ou menos assim:
(Começa com a senhora a falar)
- "A parte da música estava a ser muito bonita, é pena..."
- "É pena, sim."
- "E ela está muito bem."
- "Pois está!"
- "E ele? Quem é o actor?"
- "O que é que interessa? Quem é que quer saber? Ela é que é a estrela, é a Dietrich!"
Sorri, instantaneamente. De facto, ela é que é estrela. Tão grande que outros nomes não importam. E enquanto esperava que o filme fosse retomado, só pensava "coitado do Lionel Atwill, ninguém lhe dá valor... e já agora pobre Josef von Sternberg, que nem realizou o filme, nem nada". Mas esperem lá, coitado? Tenho pena é da fita! Toda queimadita, ali, laranja no ecrã, parecia caramelo a derreter. Valha-nos Santo António!
E esta semana é tudo. Obrigada pela atenção e perdoem-me se contei demasiado, mas podia ser pior… pode sempre ser pior.
Aproveitem bem o fim-de-semana e também a Páscoa, para quem celebra. E muita cautela, não sejam lambões, guardem alguns chocolates para ir comendo durante a semana.
Porque se comerem tudo de uma vez, já sabem, ficam com dores de barriga. Mas vá, se quiserem comam, comam que a barriga é vossa.
Ide em paz e que os flashbacks sejam docinhos sem vos fazer perder o chão. Ou a cabeça. Bem hajam!



